sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O tabu do "fio terra"



Eis um assunto sobre o qual a esmagadora maioria dos homens evita tagarelar – mesmo aqueles mais ousados, que não evitam qualquer assunto de natureza sexual, seja na mesa do bar ou na sala do escritório. Só o nome popular dessa prática, porém, já é suficiente para deixar sem reação muitos deles. Vamos falar de “fio terra”?

Pouquíssimos são os heterossexuais que praticam essa modalidade sexual e falam sobre ela abertamente. Menor ainda é o grupo que confessa realmente gostar dela. O principal motivo, claro, é ser tachado de homossexual por apreciar a estimulação do ânus.

Mas, de acordo com especialistas, a região anal, quando tocada, traz grande carga de prazer para muitas pessoas, sejam mulheres ou homens. A parte externa do ânus humano concentra várias terminações nervosas e, por isso, as carícias feitas ali podem provocar muitas sensações. A parte interna do ânus também produz essas sensações, principalmente porque, nos homens, ali é possível estimular a base interna do pênis, o duto ejaculatório e a próstata.

Na prática
O caso é que essas regiões do corpo masculino podem, na verdade, dar tanto uma sensação de bem-estar quanto de mal-estar, dependendo em primeiro lugar não do aspecto físico, mas da carga emocional da pessoa. “A penetração pode ser muito dolorosa ou impraticável, se não houver relaxamento e lubrificação adequada da região, pois os estímulos dolorosos acabam se sobrepondo aos de prazer”, diz Carmita Abdo, psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

Ela lembra que a obtenção do prazer deve ser uma preocupação das duas pessoas em uma relação. “Devemos pôr abaixo essa ditadura do ‘experimentar tudo’ e ter que sentir prazer com todo e qualquer recurso. Não somos máquinas. Os sentimentos, as emoções, as motivações, os valores e a educação que recebemos pesam muito no nosso comportamento e na forma como exercemos nossa sexualidade”, completa Carmita.

Será que ele é?
Segundo sexólogos, gostar do tal “fio terra” também não tem nada a ver com ser gay. Eles definem que a homossexualidade é ligada à direção do desejo: se a pessoa sente atração por alguém do mesmo sexo, é homossexual; aqueles que sentem desejo por ambos os sexos, seriam bissexuais; mas se um homem fica excitado apenas com mulheres, ele é heterossexual, independente da satisfação que sinta na região do ânus.

Jefferson Soares*, advogado, é exceção, pois garante sentir prazer quando a namorada pratica a estimulação anal e jamais pensar se isso faz dele homossexual. “É uma brincadeira a mais, não se trata de só ter estímulo assim. Nós dois sentimos prazer de várias formas. E eu acho isso muito sadio num relacionamento”, diz. Mesmo assim, ele conta que nunca fala disso com colegas. “Não é um papo que a maioria dos amigos quer ter. E eu não quero virar alvo de piada por causa da minha intimidade”, diverte-se.

Já o barman Silvio Mancini* é definitivo: não procura e nem acha graça nesse tipo de satisfação sexual. “Existem muitas formas de sentir prazer, mas essa definitivamente é mais um incômodo do que uma ‘grata surpresa’”, brinca. “Apenas uma namorada fez comigo, sem me pedir nem nada. Eu não esperava, o que para muita gente pode ser divertido e estimulante... Mas eu achei estranho mesmo. E bem constrangedor”, conta.

“A vergonha ainda parece ser a principal questão na estimulação anal com os homens”, conclui a sexóloga Tamires Arcanjo, de São Paulo. “Apesar de muitos deles gostarem de fazê-lo com suas namoradas e esposas – e até reclamar quando elas dizem não gostar disso – os homens encaram mesmo como tabu. A tendência, porém, é isso se diluir na evolução da sociedade”, acredita Tamires. “E daí eles apenas avaliarão se gostam ou não, e não se ‘é certo ou não’ gostar dessa prática”, completa.

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